RCC Tocantins
02/04/2007 - 15h47m

A beleza da V Conferência do Episcopado Latino-Americano (III)

 
Entrevista ao secretário-geral da Conferência de Aparecida, Dom Andrés Stanovnik, O.F.M. Cap.

APARECIDA, quinta-feira, 29 de março de 2007 (ZENIT.org).- «A V Conferência é um grande chamado à conversão. Poderíamos dizer que, mediante este grande acontecimento, Jesus Cristo chama a Igreja na América Latina para que se converta mais a Ele, para que com Ele e Nele se comprometa a estender seu Reino, colaborando em fazer este mundo mais humano e mais conforme o querer de Deus», afirma um dos bispos encarregados pelo Papa de chefiar a V Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano e do Caribe (Aparecida, Brasil, 13 a 31 de maio).

Nesta entrevista especial a Zenit, o secretário-geral da V Conferência, Dom Andrés Stanovnik, O.F.M. Cap., bispo de Reconquista (Argentina) e secretário-geral do CELAM (Conselho Episcopal Latino-Americano), detalha o tema da V Conferência, explica como se desenvolverão os trabalhos no Santuário de Aparecida, antecipa informações sobre o Documento de Trabalho que os bispos utilizarão, entre outros assuntos.


–Falamos ao início de identidade cristã. Pode-se falar de uma identidade latino-americana? Não se dariam realidades muito diferentes, levando em conta a grande quantidade de países que se congregam na V Conferência?

–Dom Andrés: As Conferências Gerais são um acontecimento original e único na Igreja Católica que peregrina pela América Latina e o Caribe. Isto não acontece em outras partes, como por exemplo na Europa, Ásia ou África. Isto foi possível graças à dimensão católica de nossa fé, que começou com o encontro de culturas e povos, quando Colombo pisou pela primeira vez as costas de nosso continente. Desde então, a obra de evangelização foi construindo um substrato cultural católico, que ainda caracteriza nossos povos. Ainda que tenha havido luzes e sombras, sofrimentos e alegrias, pecado e graça, na tarefa evangelizadora, como costuma acontecer nos encontros entre seres humanos, o saldo é altamente positivo, ainda quando todavia tenha muito o que superar e construir, para que sejamos uma verdadeira comunidade de nações eqüitativa, justa e solidária.

Contudo, o fato de que estejamos a ponto de celebrar a V Conferência Geral, em continuidade com as anteriores (Rio de Janeiro, Medellín, Puebla e Santo Domingo), significa que há uma identidade religiosa e cultural que torna possível este encontro. Falamos de América Latina e Caribe, porque nos reconhecemos pertencentes a uma mesma família de nações e povos. Descobrimo-nos ligados não por algo meramente circunstancial ou estratégico, mas por algo muito mais profundo, que nos dá essa identidade de família grande. No âmbito das 22 Conferências Episcopais latino-americanas e caribenhas nos reconhecemos com alegria e gratidão como uma verdadeira família de conferências.

O CELAM (Conselho Episcopal Latino-Americano) é testemunha dessa realidade há mais de cinqüenta anos. Certamente, o substrato cultural católico há tornado possível esta unidade regional. Da Espanha e Portugal recebemos a fé e também a cultura, e junto com a cultura, a língua. Graças a essas raízes comuns, podemos construir a unidade entre nossos povos sobre bases profundas e projeção transcendente. Também é certo que esse substrato cultural católico está ameaçado e nos desafia a uma tarefa urgente para defendê-lo e encontrar novos caminhos para recriá-lo e consolidá-lo.

Junto com reconhecer valiosos aspectos que fazem a unidade de nossos povos, reconhecemos uma rica diversidade. O Brasil tem características muito próprias, que o diferenciam claramente dos demais países da América Latina. Se comparamos a Guatemala, um país da América Central, ou um país do sul, como o Chile ou Uruguai, vemos que são muito diferentes. Contudo, quando um guatemalteco se encontra com um uruguaio, sentem-se mais familiares que com um italiano, ou com um americano do norte ou asiático. Este fenômeno de familiaridade entre nossos povos é um dom muito grande, um verdadeiro presente de Deus. Tudo o que une e harmoniza, tudo aquilo que «faz família», reflete a Deus, que é comunhão na Trindade, e permite que nos reconheçamos criados a sua imagem e semelhança. Esta comunhão na unidade se constrói com a ajuda de Deus, que nos abre à riqueza que contribuem as diferenças e particularidades.

Na América Latina está quase a metade dos católicos do mundo. É um sinal de esperança e uma responsabilidade muito grande para a Igreja. Não é estranho que a expressão «continente da esperança» nasça no seio da comunidade católica. A consciência de catolicidade que tem a comunidade católica lhe permite construir um espaço real de universalidade e de unidade entre povos. É muito importante que em nossas comunidades cultivemos essa dimensão católica descobrindo, ao mesmo tempo, que não é possível construí-la se não reconhecemos, respeitamos e integramos as diversidades. Da mesma forma, é bom ter em conta que o reconhecimento, respeito e integração das diversidades só é possível se há uma suficiente e clara identidade dos atores, que constroem a unidade contribuindo com suas riquezas e suas diferenças.

Tenho a impressão de que a próxima Conferência Geral em Aparecida será particularmente sensível a estes aspectos, precisamente porque o tema gravita sobre a identidade e vocação do sujeito «discípulo e missionário de Jesus Cristo» e se abre imediatamente à missão universal em favor de «nossos povos para que tenham vida em Cristo».

–Como está estruturado o documento de Síntese da V Conferência? Que pontos poderia destacar deste texto?

–Dom Andrés: A finalidade da «Síntese das contribuições recebidas para a V Conferência Geral» foi recolher a reflexão de nossas comunidades católicas espalhadas em todo o continente sobre sua experiência de fé, de Igreja e de sociedade no momento presente. Esta tarefa levou um ano de trabalho. Da Síntese destacaria duas coisas que considero importantes. Antes de tudo, este texto recolhe o olhar de fé que tem nosso povo crente sobre a realidade que nos toca viver. E logo, a missão no continente.

O olhar da pessoa crente é um olhar aprendido na escola de Jesus e amadurecido na comunidade eclesial. Trata-se de um olhar do coração de Deus, em conseqüência é, antes de tudo, um olhar bom e misericordioso, mas ao mesmo tempo profundamente crítico. Como é o olhar de Deus Pai criador que nos revelam as primeiras páginas do Gênesis: e viu que tudo era bom. Deus não renuncia a seu olhar bom quando pergunta a Caim «onde está seu irmão», mas revela que sua bondade e compaixão não se contradiz com seu olhar e seu juízo profundamente críticos. O olhar de Jesus Cristo crucificado dirigido a cada um, a sua Igreja, à realidade do mundo, é profundamente comovedor e compassivo mas, ao mesmo tempo, agudamente crítico, sem muitas palavras. O gesto do crucificado é uma espada que atravessa profundamente a realidade. O juízo cristão sobre a realidade deve integrar misericórdia e justiça, uma bondade ampla e profundo olhar crítico. O discípulo missionário deve aprender na escola de Jesus a ver, julgar e atuar como ele, por ele e nele. Este estilo cristão de discernimento não se pode viver «solitariamente», mas inserido na comunidade eclesial e iluminado pelo magistério da Igreja. Em outras palavras, poderíamos dizer que na experiência de amizade e comunhão de vida com Jesus Cristo, vamos aprendendo a discernir o tempo presente, e com a ajuda de sua graça agir conforme sua vontade.

O estilo de missão, o outro aspecto que se destaca na Síntese, se caracteriza por refletir esse olhar de Deus que sempre resgata, recupera, recria. Esta feliz notícia nos é revelada na Sagrada Escritura. Segue resgatando hoje e esse tem que ser o olhar e o estilo da missão do cristão. Mas resgata com uma profundidade crítica que se revela em toda sua comovedora realidade na cruz de Jesus Cristo. Por isso, o compromisso do cristão tem que chegar a essa medida. Neste sentido, o martírio é o ponto mais alto do testemunho do crente e o gesto inconfundível de autenticidade de sua missão. Como fazer para que o discípulo e missionário de Jesus Cristo realmente seja vida para nossos povos? O desafio é recuperar para ele a dimensão de martírio que tem a vocação cristã. Se não está disposto a jogar tudo pelo tudo, é uma testemunha pálida da vocação e missão à qual está chamado. Não reflete Jesus Cristo. É verdade que a proposta de Jesus Cristo é grande para a Igreja. Mas por fidelidade a ele, não pode diminuí-la ou acomodar a uma certa medida tolerável. Cremos que para Deus não há nada impossível e foi a ele quem nos fez a sua imagem e semelhança, e logo nos fez seus discípulos e discípulas pela amizade com Jesus Cristo. Temos que pedir a graça de nos encontrar com Ele e que Ele nos transforme. Por isso a prioridade da V Conferência não é elaborar uma estratégia pastoral para recuperar os católicos que se foram a outros grupos religiosos. Alguns meios de comunicação quiseram que fosse isso para que novela fosse mais interessante e sedutora, e não faltaram os bons e os maus. O mais importante da V Conferência é a renovação da Igreja e de cada um de seus membros, para que sejamos verdadeiros discípulos e discípulas do Senhor Jesus, dispostos a dar a vida e a anunciar que só dando-a que a recebemos. O caminho da missão hoje deverá ser medido pela fidelidade a Jesus Cristo e à Igreja, no diálogo aberto e respeitoso com todos, e no compromisso solidário para construir uma sociedade mais eqüitativa e fraterna.

–Como se dão, no interior da V Conferência, os debates entre os bispos, as sessões de trabalho e a contribuição de teólogos e peritos?

–Dom Andrés: Quando nos referimos ao acontecimento que vai acontecer em Aparecida, costumamos nomeá-lo como «uma reunião do CELAM», ou dizemos também «a V CELAM». Isto induz a um erro, porque dá a entender que se trata de um encontro de bispos convocado pelo CELAM. A V Conferência Geral não é «uma reunião do CELAM». É uma reunião, à qual o Santo Padre convoca as 22 conferências episcopais da América Latina e do Caribe, e encarrega o CELAM de sua preparação.

Há um só Colégio Apostólico que é constituído pelos bispos, sucessores dos apóstolos, e presidido pelo sucessor de Pedro, o Papa Bento XVI. Então este colégio se reúne de diversas maneiras: em concílio, em sínodo, convocado sempre por sua Cabeça. Mas também pode ser convocado por pedido de um grupo de bispos de uma determinada área. Isto é o que acontece na América Latina há mais de 50 anos, como experiência única e original na Igreja Católica. As quatro Conferências Gerais anteriores nasceram por iniciativa dos bispos latino-americanos, que apresentaram ao Santo Padre seu desejo de reunir-se, e lhe propuseram além disso o tema que em seu momento julgavam necessário aprofundar. Até o presente, o Papa sempre acolheu favoravelmente estas iniciativas, assumiu o tema enriquecendo-o com sua contribuição pessoal e, escutando as sugestões sobre a conveniência de lugares onde devia ser celebrada, achou de bom grado as opiniões dos bispos latino-americanos, indicando o lugar e a data de suas celebrações.

Agora podemos compreender melhor por que o Regulamento para o funcionamento de uma Conferência Geral é um instrumento elaborado pela Santa Sé. E também, porque é tão importante que o Santo Padre venha a Aparecida para inaugurar as deliberações dos bispos.

No Regulamento se estabelecem as normas e se indicam os organismos que são necessários para o bom desenvolvimento de uma Conferência Geral. Também ali se diz quem são os bispos participantes por direito, o número proporcional de bispos delegados por conferências episcopais, o número de convidados que representam os sacerdotes, religiosas e religiosos, diáconos, leigos e leigas, observadores de outras confissões cristãs e do judaísmo, representantes dos organismos de ajuda, e um grupo de peritos. Nesta Conferência Geral participarão 162 bispos e 104 convidados não bispos, ou seja, destes últimos somam mais de um terço do total de assistentes.

A Assembléia de Aparecida vai refletir sobre o tema que o Papa nos entregou: «Discípulos e missionários de Jesus Cristo, para que n’Ele nossos povos tenham vida. “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida” (Jo 14, 6)». A Síntese das contribuições recebidas será um subsídio qualificado para consulta dos participantes, que trabalharão durante 19 dias em grupos, comissões, subcomissões e plenários, com uma intensa dinâmica de diálogo e participação, para que todos os participantes contribuam com suas idéias para desenvolver o tema da reunião, ajudados pelos teólogos e peritos que foram convocados para esse serviço.

–A V Conferência pretende chegar concretamente na vida das pessoas no âmbito da missão?

–Dom Andrés: A finalidade da V Conferência, como foi das quatro anteriores, é a evangelização do continente. Desde que se começou a falar desta Conferência Geral, se disse que devia ser um acontecimento que desse um novo e forte impulso para a missão. Dependerá das orientações pastorais que surjam de Aparecida, para ver logo quais características estruturais e programáticas convém que tenham essa missão. O que sim, parece claro é que, através das 22 conferências episcopais que se reunirão na próxima Conferência Geral, se quer chegar a todas as Igrejas particulares do continente e, desde elas, a cada um dos católicos, para tomar consciência de nossa vocação missionária como discípulos e discípulas de Jesus Cristo e comprometer-nos com ela. Ou seja, o compromisso para o cristão leigo, consistirá em primeiro lugar, em viver coerentemente os valores cristãos na família e na sociedade, agir como cidadão consciente de suas obrigações e direitos, e ser honesto no trabalho e no compromisso pelo bem comum.

Um continente que tem aproximadamente 80% de batizados não pode ser o menos eqüitativo do planeta. Como é possível que exista essa brecha entre a fé e a vida, entre o evangelho e a cultura em um continente majoritariamente cristão? A V Conferência Geral é um grande chamado à conversão. Poderíamos dizer que, mediante este grande acontecimento, Jesus Cristo chama a Igreja na América Latina para que se converta mais a Ele, para que com Ele e Nele se comprometa a estender seu Reino, colaborando em fazer este mundo mais humano e mais conforme o querer de Deus.

–Qual é a importância desta Conferência estar sob os auspícios de Maria?

–Dom Andrés: Quando nos interamos que o Santo Padre Bento XVI havia decidido que a V Conferência fosse realizada junto ao Santuário de Aparecida, nos alegramos muitíssimo. Primeiro, porque a Conferência vai acontecer em um santuário mariano, o qual tem um alto significado em nossa região. A devoção mariana é uma característica muito própria de nossos povos. Nossa gente se sente muito vinculada aos santuários marianos, onde experimenta uma especial proximidade da Virgem, e se deixa levar por ela ao encontro com Jesus Cristo e com a Igreja. Nós, bispos, estaremos ali mais de 20 dias, acompanhados de numerosos peregrinos durante as celebrações diárias da Santa Missa no altar maior da Basílica. A presença da Virgem Maria, primeira discípula e missionária, nos estará recordando a cada passo nossa comum vocação de discípulos e missionários de Jesus Cristo.

Para a Conferência de Aparecida, o acontecimento mariano se faz ainda mais significativo, se temos presente que a inauguração e o encerramento coincidem providencialmente com festas marianas: 13 de maio, Nossa Senhora de Fátima, e 31 de maio, a Visitação da Santíssima Virgem Maria.

No contexto do Santuário de Aparecida, onde se realizará a reunião dos bispos, a presença de Nossa Senhora nos traz à memória aqueles dias em que ela, perseverando junto aos apóstolos, cooperou com o nascimento da Igreja. A ela nos confiamos, para que também hoje esteja conosco, nos mostre o caminho da docilidade e da obediência ao Espírito Santo, para que com sua luz saibamos discernir o tempo presente e assim, renovados pelo ardor missionários, trabalhemos tenazmente em favor da vida de nossos povos em Cristo, Caminho, Verdade e Vida.

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